Redação destaque: "Corpos dissidentes e os limites da normatividade", por Ana Vilela

        

   

Destaque da Semana:

    Nosso(a) aluno(a) Ana Vilela conquistou o destaque da semana ao desenvolver o tema "Corpos dissidentes e os limites da normatividade". Orientada pelo(a) professor(a) Thiago, produziu um texto no gênero dissertação argumentativa, direcionado ao Fuvest.


   O professor Regis Moreira afirma que, durante a história, a sociedade criou padrões a serem seguidos pelos corpos para que fossem considerados normais, silenciando e desrespeitando aqueles que não se adequavam a essas normas. A partir desse contexto, observa-se que, na contemporaneidade, grupos que fogem aos padrões socialmente impostos permanecem sendo desvalorizados, tendo sua dignidade comprometida por diversas formas de violência e de exclusão, a exemplo da discriminação e da negação de direitos políticos. Logo, é inegável que as limitações produzidas pela normatividade sobre os corpos dissidentes são reforçadas em razão da mentalidade conservadora e da falta de representatividade desses grupos em posições de poder.

    Diante desse cenário de injustiças, nota-se que o tradicionalismo enraizado na sociedade, ao estabelecer os limites da normalidade, violam os direitos de grupos vulneráveis, acentuando a exclusão social. Nesse sentido, vale lembrar o "American way of life", um conceito muito difundido no século XX pelos Estados Unidos da América, que tratava como um dos pilares para a felicidade o sucesso e a família tradicional conservadora, aquela cumpridora dos padrões sociais. Esse pensamento é uma clara evidência da relação do conservadorismo com o estabelecimento de barreiras entre o que é considerado “normal” e aquilo passível de ser desrespeitado. Por conseguinte, os corpos que se distanciam de tais ideais preconceituosos são apagados, fator notório no Brasil, em que, de acordo com a CNN, o número de assassinatos anuais de pessoas trans é altíssimo e motivado pelo fato de que as vítimas não se encaixavam em um ideal de normalidade, definido "coincidentemente" por aqueles que se dizem "normais".

    Ademais, é válido ressaltar que a escassez de corpos considerados dissidentes defendendo seus direitos em possíveis posições de poder dificulta sua inclusão. Sobre isso, cita-se a socióloga Maria Lugones, a qual afirma que o colonialismo europeu construiu uma hierarquia dentro dos sistemas político, econômico e social que reserva o poder unicamente ao homem branco. Analogamente ao que ocorria no passado colonial, mulheres, sobretudo negras, foram historicamente associadas a funções subalternizadas, como o trabalho doméstico, o que as impede de atingirem posições de dominância. Essa herança ainda se manifesta na contemporaneidade, já que, no Brasil, a presença de mulheres pardas e negras no mercado de trabalho é muito baixa, como aponta o IBGE, marca deixada pela imposição normativa do Período Colonial brasileiro, que ainda afeta a representatividade negra nos mais diversos espaços.

    Portanto, é nítido que o pensamento conservador e a falta de representatividade dos grupos invisibilizados nas posições de poder tornam cada vez mais difícil garantir uma vida digna aos corpos dissidentes, reforçando os limites estipulados pela normatividade.



Ana Vilela

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