Redação destaque: "Por que a valorização dos direitos humanos é condição para a garantia de uma vida digna no Brasil?", por Sara Sanches

    

   

Destaque da Semana:

    Nosso(a) aluno(a) Sara Ferreira Sanches conquistou o destaque da semana ao desenvolver o tema "Por que a valorização dos direitos humanos é condição para a garantia de uma vida digna no Brasil?". Orientada pelo(a) professor(a) Eli, produziu um texto no gênero Artigo de Opinião, direcionado ao vestibular da PUC.


Direitos humanos: o antídoto para a cor da miséria
     Se para muitos a cor amarela remete ao ouro, aos girassóis de Van Gogh ou à intensidade da luz, no universo da escritora Carolina Maria de Jesus, o amarelo é outra coisa. Favelada, negra e catadora de papel, ela escrevia seu diário sobre a fome de seus três filhos. Para Carolina, a fome não era apenas uma ausência, ela tinha uma forma, um cheiro e uma cor inesquecível. Em suas palavras: “a fome é amarela e dói muito”. A fome amarela era a cor da bile, o reflexo de um estômago vazio, que transformava o mundo em um cenário trágico de miséria. Direitos humanos não são apenas um conjunto de ideias escritas em documentos, mas sim garantias de que nós não tenhamos que ver o mundo com a mesma cor com que a escritora mineira via
    O Estado cria uma realidade dicotômica: enquanto alguns não sabem o que é esse amarelo-bile, outros dormem diariamente coloridos por ele. Eu me recordo de ter estudado a ilustre obra: “A era dos direitos” de Norberto Bobbio. Para o estudioso, é necessário entender que existe diferença entre o que está escrito nas leis e o que realmente acontece na vida das pessoas. Quantas vezes já vimos o nosso Estado defender o que está escrito nas leis e o que realmente acontece na vida das pessoas? Quantas vezes já vimos o nosso Estado defender a dignidade e a justiça no discurso, mas tolerar visões amarelamente turvas? Por isso, é necessária a valorização e, principalmente, a efetivação dos direitos humanos na realidade brasileira. Com eles conseguimos uma vida digna. Uma vida sem fome. Uma vida em que o amarelo não seja apenas nossa bile expelida de nosso corpo, e sim uma cor que remeta à superação da falta de comida, em que o único vazio que reste seja o espaço para os sonhos.
    Ademais, não posso deixar de expressar o quanto nossa sociedade é apática. O que mais me impressiona é saber que, além de o Estado desvalorizar prerrogativas básicas a uma parcela da população, milhares de indivíduos não compartilham o muito que possuem com quem não tem nada. Não falo apenas de dinheiro, falo, especialmente, sobre o mínimo de cuidado com quem vive ao seu lado. Macabéa: pobre, órfã, miserável e invisível na tão falada “Cidade Maravilhosa”. Ela não é somente uma vítima da carência de políticas públicas, mas da fome de humanidade daqueles que a cercam. Enquanto, amarelada, Macabéa alimenta-se de “ar” e de sonhos vagos, os que cruzam seu caminho oferecem-lhe o silêncio, o deboche ou a indiferença. Essa apatia coletiva cria um abismo, em que a dignidade humana é anulada. No livro, a protagonista é tão invisível que só ganha “status” de estrela ao ser atropelada por um carro metálico e, ironicamente, amarelo. Quantas Macabéas ignoramos diariamente em nossas rotinas?
    Por fim, deixo claro como a valorização dos direitos humanos é condição para a garantia de uma vida digna no Brasil. Por tudo o que já presenciei, sei que, enquanto o Estado e os brasileiros não se importarem com quem vive à margem da sociedade, muitas pessoas continuarão mergulhadas no amarelo da fome e da tontura. Sem essa mudança de olhar, a existência de tantos cidadãos seguirá sendo um silêncio, interrompido apenas pela tragédia no asfalto da indiferença.
Sara Sanches

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