Redação destaque: "O trabalho medido por algoritmos: autonomia real ou nova face da servidão? ", por Ana Júlia N. Souza
Destaque da Semana:
Nosso(a) aluno(a) Ana Júlia N. Souza conquistou o destaque da semana ao desenvolver o tema "O trabalho medido por algoritmos: autonomia real ou nova face da servidão? ". Orientada pelo(a) professor(a) Nayara, produziu um texto no gênero Artigo de Opinião, direcionado ao vestibular da UFU.
O reflexo da exploração
Os sistemas de dominação humana são muito anteriores à existência do capitalismo. Nesse sentido, se, no Brasil colonial, os escravos africanos começaram a ser "libertos" para que os senhores se ausentassem da necessidade de pagar o imposto aurífero de capitação, que era cobrado por cabeça, mas os alforriados continuavam sendo explorados e segregados, no nosso Brasil atual, é a máscara da autonomia que esconde a realidade da exploração e da negligência do empregador para com o empregado, submetido a um sistema que apenas adquiriu novas formas. Por isso, eu, como historiadora do materialismo dialético, sinto-me na obrigação de expor que o trabalho mediado por algoritmos é, infelizmente, mais uma maneira de servidão, disfarçada de liberdade. Assim, enquanto não houver transformação das nossas deformidades esféricas de desigualdade social e nós não enxergarmos que compartilhamos com o fetiche dos nossos cacos, seremos o espelho da exploração perpétua desde o regime colonial.
Diante dessa face ferida da nossa sobrevivência, eu enfatizo que as novas tecnologias impactaram de modo diferente as cavidades sócio-econômicas brasileiras. A partir dessa proposta, a célebre psicóloga Bruna Fávaro já denunciou que a chamada Revolução Histórica-Informacional adaptou-se aos contextos sociais já vigentes, ou seja, arrisco deduzir que as tecnologias digitais, submetidas à má administração, não são tão revolucionárias quanto afirmado. O reflexo desse quadro, leitor, é claro: por um lado, uma pequena parcela da população, qualificada profissionalmente e com oportunidades variadas, realmente desfruta da liberdade das novas formas de trabalho; por outro lado, um grande contingente social, explorado e à deriva das imposições do meio, é subordinado a uma flexibilização dos vínculos empregatícios, ficando à mercê dos seus direitos e da sua dignidade. Consequentemente, enganados pela ideia de autonomia, inúmeros trabalhadores seguem "em servidão", com jornadas exaustivas, remuneração baixíssima e insegurança constante.
Ademais, ainda que os sistemas exploratórios sejam antigos na humanidade, eu evidencio, leitor, que o sistema capitalista conseguiu transmutar o caráter da dominação humana ao convencer o trabalhador da "independência" da sua servidão. Nessa perspectiva paradoxal, são de extrema importância os estudos de Karl Marx, que demonstraram que o capitalismo agregou valor ao trabalhador como se este fosse a mercadoria em si; isto é, os traços humanos foram fetichizados, e nós, para agravar a quebra da nossa essência, fomos convencidos ideologicamente de que a exploração compulsória era autonomia. Nesse viés, em um mundo cada vez mais controlado por algoritmos, o trabalhador torna-se a peça de uma realidade fabricada para mantê-lo alienado das suas garantias e da sua própria humanidade. Logo, eu afirmo que, corrompido pela dinâmica neoliberal, o trabalhador brasileiro é fragmentado como cacos de um espelho que deixou de refletir a sua identidade.
Portanto, está no momento de limparmos o vidro que nos reflete. Apenas quando as desigualdades sócio-econômicas disformes forem superadas, polindo a história a fim de aplainar as discrepâncias sistêmicas, e conseguirmos ver através do véu ideológico da falsa autonomia é que deixaremos de refletir um ciclo perpétuo de exploração.
Josefa.
Ana Júlia N. Souza

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