Redação destaque: "O trabalho medido por algoritmos: autonomia real ou nova face da servidão? ", por Camila Rabelo Terra
Destaque da Semana:
Nosso(a) aluno(a) Camila Rabelo Terra conquistou o destaque da semana ao desenvolver o tema "O trabalho medido por algoritmos: autonomia real ou nova face da servidão? ". Orientada pelo(a) professor(a) Leandro, produziu um texto no gênero Artigo de Opinião, direcionado ao vestibular da UFU.
Novas relações de trabalho: independência ou exploração?
Durante a preparação de uma palestra sobre as novas formas de trabalho, decidi utilizar uma charge de Vitor Teixeira em um dos slides e, ao mostrá-la a um colega do meio jornalístico, deparei-me com uma em que ele denuncia, por meio somente do texto verbal, a expansão do domínio tecnológico no mercado de trabalho, em que a suposta independência financeira do trabalhador caminha lado a lado com o fenômeno da exploração. Sob essa perspectiva, eu me questiono: será que o aumento da precarização se sobrepõe à promessa de autonomia? A resposta negativa é visível, por exemplo, na venda da mão de obra para plataformas digitais, as quais permitem que sejamos "nossos próprios chefes", mascarando, assim, o trabalho mediado por algoritmos, sobretudo destituído da garantia de seus direitos.
Diante desse contexto preocupante, entendo que a precarização está intrínseca ao modelo capitalista monopolista no estabelecimento dessa exploração contemporânea. No momento, as reflexões de Marx – já tratadas em uma prévia edição deste jornal – ressoam em meus pensamentos: o ato de trabalhar se apresenta alheio à própria produção. O que o filósofo propõe pode ser aplicado ao contexto atual, atualizando o conceito de alienação e aprofundando a precarização, uma vez que, embora a evolução tecnológica atualize a ideia de independência e de liberdade, ela também torna o indivíduo exausto. Prova disso? Em um levantamento realizado em 2025 pelo IBGE, a renda obtida por trabalhadores de aplicativos caiu 25%, mesmo com o aumento do número de adeptos da modalidade, que já ultrapassa 17 milhões de pessoas, revelando a predominância de salários baixos, de jornadas exaustivas e de condições marcadas pela insegurança laboral.
Ademais, noto que a ausência de uma regulamentação eficiente das plataformas digitais submete profissionais ao controle constante de algoritmos, já que eles precisam manter elevados índices de produtividade para permanecerem ativos e competitivos nas plataformas. Contudo, é notório que, por mais que existam leis destinadas a prever condições dignas de trabalho, tais normas nem sempre são plenamente efetivadas, principalmente devido à falta de reconhecimento formal do vínculo empregatício entre trabalhadores e aplicativos. Como consequência, desconsideram-se as jornadas exaustivas e os riscos enfrentados diariamente por esses profissionais, frequentemente apresentados pelas empresas como “autônomos”, apesar de terem suas atividades rigidamente condicionadas por avaliações, por metas e por demandas automatizadas. Essa realidade torna-se evidente em casos recorrentes envolvendo entregadores de aplicativos, como o de um trabalhador da Rappi que, após sofrer um acidente durante o expediente, foi informado de que a responsabilidade pela preservação de sua integridade física era exclusivamente sua, e não da empresa, demonstrando como as plataformas transferem integralmente os riscos da atividade ao trabalhador.
Portanto, é inegável que, enquanto a desvalorização do funcionário e a flexibilização de seus direitos persistirem, o trabalho mediado por algoritmos continuará configurando uma nova servidão no cenário contemporâneo. Consoante o contexto, a ilusão de autonomia apenas evidencia cada vez mais o quadro de exploração da nossa realidade.
Camila Rabela Terra

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