Redação destaque: "O trabalho medido por algoritmos: autonomia real ou nova face da servidão?", por Mariana Vieira
Destaque da Semana:
Nosso(a) aluno(a) Mariana Vieira conquistou o destaque da semana ao desenvolver o tema "O trabalho medido por algoritmos: autonomia real ou nova face da servidão? ". Orientada pelo(a) professor(a) Eli, produziu um texto no gênero Artigo de Opinião, direcionado ao vestibular da PUC.
O escravo empreendedor
Senhor feudal servo. Dono de engenho escravo. Burguês proletário. Parece bem contraditório, não é? Essa percepção surge porque Marx sempre nos disse que a divisão da sociedade em classe dominante e dominada origina-se da disparidade entre aqueles que detinham os meios de produção e aqueles que vendiam sua mão de obra para os detentores. Entretanto, na contemporaneidade, um novo fenômeno rompeu com esse paradigma: a exploração do proletariado portador de sua pretensa propriedade privada, de seu próprio recurso produtivo. O capitalismo, por meio de plataformas como Uber e Ifood, tornou-se capaz de te extorquir com seu carro, com sua moto, com seu simulacro de meio de produção. É como se o senhor de engenho fosse escravo na própria fazenda. Enquanto pesquisadora especializada em sociologia do trabalho e colunista, imagino que nem mesmo o marxismo conseguiria prever que seríamos tão alienados a ponto de realizarmos autopressão embasada na ilusão neoliberal de que somos patrões de nós mesmos. Diante desse cenário, eu me pergunto: é possível que o empreendedor se torne escravo de seu empreendimento? Desse modo, evidencio que o trabalho mediado por algoritmos no país é uma nova face da servidão.
Há, entre nós, aqueles que ainda defendem que a “gig economy” é uma forma de autonomia que ilustra o antigo operariado. Contudo, esse modo de explorar o trabalho sob demanda, mediado por plataformas digitais, representa, na realidade, a ausência de vínculos formais entre empregador e empregado, beneficiando apenas o detentor do capital – o qual se isenta de fornecer qualquer forma de seguridade ou de proteção social, enquanto se apresenta como um sonho utópico para qualquer CLT, que, teoricamente, poderia definir a sua carga horária, o seu salário e as suas férias. Quando acordamos do sono profundo da alienação, percebemos que, na verdade, somos levados a trabalhar vinte e quatro horas por dia, a ganhar menos que um salário mínimo e a ter as férias reservadas apenas para o dia da nossa morte. Acerca disso, percebo que a tecnologia foi incorporada à superestrutura criticada por Karl Marx, isto é, as instituições utilizadas para a manutenção da exploração vigente, uma vez que as plataformas on-line tornaram-se ferramentas alienantes de reprodução de formas antigas de abuso laboral, como a escravidão, porém agora revestidas de inovação tecnológica. Até quando enxergaremos como autônomos, e não como escravos reificados do sistema, os quase 2 milhões de “gig trabalhadores” submetidos a jornadas sufocantes e a salários insignificantes por trabalharem por aplicativos?
Ademais, noto que os algoritmos que permitem a efetivação da “uberização” não passam de uma forma de restituir e de normalizar a tradição escravista secular no Brasil, agora apresentada como um modelo capaz de alforriar o neoescravo. A esse respeito, a (des)valorização da vida humana, que permeava o Brasil do século XVI, voltou com muita força: jornadas intensas, ausência de direitos ou de proteção, reificação. Estaria eu descrevendo a realidade de um escravizado no Brasil Colônia ou de um motorista da Uber? A única diferença é que o abuso físico deu espaço ao psicológico. A chibatada transformou-se em crise de pânico. Os trabalhadores estão adoecendo mentalmente e, portanto, vêm se mostrando tão descartáveis para as “big techs” quanto os escravizados lesionados eram para os seus senhores. A sociedade do cansaço está nos matando de dentro para fora. Como terei saúde psíquica se, agora, sem uma carteira assinada pelo meu empregador plataformizado, eu não tenho direito algum? Sem descanso. Sem seguro saúde. Sem aposentadoria. Sigo sem nada que me humanize enquanto trabalhadora.
A verdade, em suma, é que a uberização do mercado de trabalho atual não é uma forma de autonomia real, mas sim uma releitura do histórico modelo escravista, uma vez que a “gig economy” aliena o neoescravizado a acreditar que é um empreendedor, intensificando a manutenção do capitalismo selvagem, criticado por Marx.
Mariana Vieira

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