Redação destaque: "Desigualdade de gênero na política", por Lara Rocha Vigilato
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Abrir coletânea (PDF)A democracia brasileira adora posar para a foto. No retrato oficial, repete-se que homens e mulheres são iguais perante a lei, como proclama a Constituição de 1988. O discurso é impecável; a moldura, dourada. Mas basta raspar o verniz para que as rachaduras apareçam: mulheres seguem minoria nos espaços de decisão, são alvos preferenciais de deslegitimação e de violência política. Para mim, é fato que, sem eufemismos, as cotas de gênero são um instrumento necessário para enfrentar essa desigualdade estrutural – ainda que, sozinhas, não sustentem o peso da reforma que a nossa democracia precisa. Chamá-las de privilégio é, no mínimo, conveniente para quem sempre ocupou o centro no retrato da política brasileira.
Os críticos insistem na velha cantilena da meritocracia: política que não se baseia na competência, mas em premissas injustas. Parece justo – até que se observe o ponto de partida. Simone de Beauvoir advertiu que a inferioridade feminina não é natural, e sim construída socialmente. Ora, se a macroexclusão foi construída ao longo de séculos, é ingenuidade – ou má-fé – acreditar que a simples igualdade formal dissolverá suas consequências. A Lei nº 9.504/1997, ao exigir o mínimo de 30% de candidaturas por gênero, busca concretizar o princípio constitucional de igualdade. No entanto, quando partidos lançam candidaturas fictícias apenas para cumprir tabela, revelam o incômodo com qualquer fissura no monopólio masculino do poder. Se a regra é burlada sistematicamente, não seria a resistência às cotas uma prova de que elas tocam justamente na ferida? A causa é evidente: redes políticas historicamente masculinas, financiamento desigual, divisão social do trabalho. A consequência? Mulheres sub-representadas, com menos recursos e com menos tempo para disputar eleições. Falar em mérito nesse cenário é como organizar uma corrida em que alguns largam metros à frente e, depois, ironizar os que ficaram para trás.
E, como se não bastasse a desigualdade de acesso, há a estratégia permanente de deslegitimação. Dados recentes mostram que grande parte de mulheres em cargos públicos já sofreu violência psicológica, muitas vezes travestida de humor. Comentários sobre aparência, insinuações sobre competência, ataques pessoais – tudo embalado como “brincadeira” – acabam funcionando como instrumentos de desestímulo à participação política feminina, esvaziando na prática os avanços institucionais promovidos pelas políticas de cotas. Não é curioso que, quando o poder é feminino, vira caricatura? Silvia Federici nos ajuda a compreender esse mecanismo de exclusão ao denunciar como o ocultamento do trabalho doméstico não remunerado consolidou o homem como “chefe de família” – lógica histórica que também ajuda a explicar por que, mesmo com cotas, as estruturas partidárias continuam privilegiando trajetórias masculinas. Como muitas mulheres acumulam jornadas de trabalho invisibilizadas e ainda enfrentam a desvalorização de sua força de trabalho, aquelas que buscam romper esse mecanismo acabam ingressando na política em condições objetivamente mais adversas do que os homens. Dado esse cenário, estou convencida de que a desigualdade econômica e cultural reduz a presença da mulher na política enquanto agrava a sua vulnerabilidade social.
Lara Rocha Vigilato


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